Não serás como a palha que o vento leva

Lhasa de SelaEstava uma manhã gelada, o ano começara há seis dias. Lia as noticias, o mundo ainda ressacava as festas. De repente, senti uma tristeza profunda tomar conta de mim. Com os olhos molhados reli, como que querendo confirmar que o vazio que me invadia não era acaso. O agente comunicara aos media «[…] a autora de La Llorona deixa o companheiro Ryan, os pais, a madrasta, nove irmãos e irmãs, 16 sobrinhos e sobrinhas, um gato e incontáveis amigos, músicos e colegas que a acompanharam ao longo da carreira, para não falar dos inúmeros admiradores em todo o mundo». Foi em 2010, Janeiro, tinha 37 anos, as lágrimas são salgadas, sou um dos inúmeros.

Primeiro em inglês

Há muitos anos, numa noite de prova de vinhos, com amigos, recordo-me que era à quinta-feira, por entre castas e anos de vindima foi-me oferecido um CD. Um original, coisa rara naquelas andanças. A admiração pelo gosto musical desse amigo era tal que me deixou deveras curioso, com expectativas a bater nas estrelas. A prova terminou a altas horas da madrugada, estava combalido pelo perfume da uva e com sono, ainda assim, mal cheguei a casa, fui directo ao leitor. O álbum chamava-se «Living Road», os títulos das faixas estavam em diversos idiomas, não menosprezando nenhum escolhi o inglês, «Anyhwere on this road», foi amor à primeira vista. O seu nome é Lhasa de Sela.

 

On the road

A «nómada» nasceu no estado de Nova Iorque em Big Indian, no entanto devido à forma de estar dos seus progenitores, em especial devido ao pai, professor que percorria os Estados Unidos e México difundindo o saber, cedo aprendeu a vaguear e a absorver o melhor de diferentes culturas. Essa multiplicidade cultural é claramente visível na sua música, com um imaginário de sons e palavras, em inglês, francês, espanhol, que remetem para a América Latina, para a vida cigana ou para a cultura árabe.

Filha de pai mexicano e mãe americana-judia-libanesa, não cresceu como a maior parte das raparigas, os seus pais eram nómadas, passou os primeiros anos de vida na estrada num autocarro que o seu pai utilizava como escola itinerante. Todas as noites, em vez de ver televisão, ela e os irmãos, representavam ou cantavam, cresciam num mundo cheio de descobertas artísticas, longe da cultura convencional. Tinha 13 anos quando começou a cantar, em cafés e bares, temas de jazz.

 

Uma voz de emoções

Em 1997 lança o seu primeiro álbum de originais «La Llorona», um trabalho onde predomina a guitarra acústica com alguns apontamentos de acordeão e banjo. Não é um álbum fácil, não não é, a voz de Lhasa umas vezes encanta-nos outras assombra-nos, raiva, ódio, amor, sensualidade, Lhasa não nos deixa tranquilos, à semelhança da lenda sul americana (La Llorona) também o álbum é dramático, intenso, delicioso, incomodo. Embora jovem, Lhasa, nas suas canções, parece uma mulher sem idade definida, isto porque altera o timbre entre e dentro dos temas. Na altura, ainda hoje, existia uma certa resistência à música cantada em castelhano e francês, no entanto o álbum foi um sucesso.

Em 2005, Lhasa é entrevistada pelo Carlos Vaz Marques, no «Pessoal e Transmissível»,  na entrevista há momentos em que parece que conhecemos a Lhasa desde sempre, a sua simplicidade cria com o ouvinte uma cumplicidade arrepiante.

 

Partiu livre, como sempre foi

Em 2010 Lhasa morreu de cancro da mama após 21 meses de combate corajoso, faleceu na casa onde vivia em Montreal, no Canadá, cidade que escolheu como base havia vários anos. Ainda conseguiu terminar o seu terceiro álbum «Lhasa», com sacrifício e a determinação que lhe era conhecida. No video abaixo é possível ver o efeito da doença, a sua voz soa entre a profecia e a despedida.

 

Lhasa é entrevistada pelo Carlos Vaz Marques, no «Pessoal e Transmissível»

Site da Lhasa de Sela

Fotos da Lhasa

 

Fontes:

Jornal o Público

Diário de Notícias 

Wikipedia

Revista Blitz

 

Lhasa de Sela

Seja o primeiro a comentar sobre "Não serás como a palha que o vento leva"

Deixe um comentário